quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Vida Zagueira #01

Vida Zagueira – Ataque cardíaco

Lá estava eu, em meu horário de almoço, à beira da quadra de futebol, saboreando minha torta, quando os caras da educação física entraram em quadra e começaram a bater bola.
Eles olham para mim, com aquele olhar de quem tem um time incompleto: “E aí? Vai ficar só olhando? Se quiser jogar, é só chegar”.
Sim, é possível transmitir toda essa mensagem com um rápido olhar.
Quem jogou bola sabe.
Pois lá fui eu inteirar um dos times. Após terminar minha torta, é claro.
Rola a bola, e eu nem sequer fiz aquecimento.
Não há tempo para arrependimentos, nem para congestão: a bola chega em meus pés pela primeira vez.
Se a vida zagueira me ensinou algo sobre peladas alheias, é que se deve chegar impondo respeito o mais rápido possível, para não perder a moral.
Driblo dois adversários, subo ao ataque, erro o chute. Miseravelmente.
Mas o drible foi legal, tenho crédito.
Volto pra marcar.
O cara quer me devolver o drible.
Maldito, como ele corre! Meu primeiro pique é atrás dele.
O ataque não dá em nada. Ufa.
Talvez você pense que eu estou fora de forma.
Eu prefiro acreditar que, na realidade, os outros é que estavam muito bem condicionados fisicamente.
Vamos lá time, hora de subir ao ataque... contra-ataque deles.
O maluco é ligeiro mesmo! Preciso dar o segundo pique. Sinto a adrenalina subir enquanto corro pra impedir o ataque dos caras que, mais uma vez, não dá em nada.
Agora é nossa vez. Subo correndo que nem um louco desde o campo de defesa.
Ao passar do meio-campo, minha visão fica turva. Mas já?!
Não tem nem três minutos de jogo!
Minhas pernas não estão cansadas, por que não consigo correr?
Consigo driblar? Sim! Mais um drible! Pronto, hoje não serei mais contestado.
Serei lembrado como “aquele gordo que não corre nada e dribla muito”.
Volto pra defesa caminhando.
Meu companheiro de time pensa que sou preguiçoso. Indignado, ele indaga: “Qualé, cara! Já tá morto?”
Eu olho pra ele, vesgo: “já!”
Eu me concentro, ignoro meus pulmões queimando e tento acompanha o ritmo alucinante que a partida toma.
Aos 5 minutos de partida, meu quarto e último pique é interrompido pela minha visão, que fica completamente embaçada.
Eu viro as costas pro jogo e caminho em direção ao goleiro de nosso time, enquanto ouço meu coração batendo acelerado em meus tímpanos; sinto gosto de sangue na garganta; meu dentes formigam; não consigo respirar.
Será que estou apaixonado ou tendo um infarto?
Deixe-me ver: minhas pernas não estão bambas, então deve-se tratar realmente de um ataque cardíaco.
Sem conseguir falar, eu só faço o clássico gesto de “substituição” e lá vou eu para o gol, descansar, me escorar nas traves e, quem sabe, eventualmente, praticar alguma defesa,  enquanto  lá ia nosso goleiro marcar, já no fim da partida, nosso gol da vitória por 3 a 2.
Vivo e vitorioso.

Rá. Quem precisa ser saudável?

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