Vida
Zagueira – Ataque cardíaco
Lá estava eu, em meu horário de almoço, à beira da
quadra de futebol, saboreando minha torta, quando os caras da educação física
entraram em quadra e começaram a bater bola.
Eles olham para mim, com aquele olhar de quem tem um
time incompleto: “E aí? Vai ficar só olhando? Se quiser jogar, é só chegar”.
Sim, é possível transmitir toda essa mensagem com um
rápido olhar.
Quem jogou bola sabe.
Rola a bola, e eu nem sequer fiz aquecimento.
Não há tempo para arrependimentos, nem para congestão:
a bola chega em meus pés pela primeira vez.
Se a vida zagueira me ensinou algo sobre peladas
alheias, é que se deve chegar impondo respeito o mais rápido possível, para não
perder a moral.
Driblo dois adversários, subo ao ataque, erro o chute.
Miseravelmente.
Mas o drible foi legal, tenho crédito.
Volto pra marcar.
O cara quer me devolver o drible.
Maldito, como ele corre! Meu primeiro pique é atrás
dele.
O ataque não dá em nada. Ufa.
Talvez você pense que eu estou fora de forma.
Eu prefiro acreditar que, na realidade, os outros é
que estavam muito bem condicionados fisicamente.
Vamos lá time, hora de subir ao ataque... contra-ataque
deles.
O maluco é ligeiro mesmo! Preciso dar o segundo pique.
Sinto a adrenalina subir enquanto corro pra impedir o ataque dos caras que,
mais uma vez, não dá em nada.
Agora é nossa vez. Subo correndo que nem um louco
desde o campo de defesa.
Ao passar do meio-campo, minha visão fica turva. Mas
já?!
Não tem nem três minutos de jogo!
Minhas pernas não estão cansadas, por que não consigo
correr?
Consigo driblar? Sim! Mais um drible! Pronto, hoje não
serei mais contestado.
Serei lembrado como “aquele gordo que não corre nada e
dribla muito”.
Volto pra defesa caminhando.
Meu companheiro de time pensa que sou preguiçoso.
Indignado, ele indaga: “Qualé, cara! Já tá morto?”
Eu olho pra ele, vesgo: “já!”
Eu me concentro, ignoro meus pulmões queimando e tento
acompanha o ritmo alucinante que a partida toma.
Aos 5 minutos de partida, meu quarto e último pique é
interrompido pela minha visão, que fica completamente embaçada.
Eu viro as costas pro jogo e caminho em direção ao
goleiro de nosso time, enquanto ouço meu coração batendo acelerado em meus
tímpanos; sinto gosto de sangue na garganta; meu dentes formigam; não consigo
respirar.
Será que estou apaixonado ou tendo um infarto?
Deixe-me ver: minhas pernas não estão bambas, então
deve-se tratar realmente de um ataque cardíaco.
Sem conseguir falar, eu só faço o clássico gesto de “substituição”
e lá vou eu para o gol, descansar, me escorar nas traves e, quem sabe,
eventualmente, praticar alguma defesa, enquanto
lá ia nosso goleiro marcar, já no fim da partida, nosso gol da vitória
por 3 a 2.
Vivo e vitorioso.
Rá. Quem precisa ser saudável?
Nenhum comentário:
Postar um comentário