Com
exceção da Copa do Mundo de 82, jamais vi meu vô se lamentando por
algo que não tinha. E não é porque ele tinha tudo, mas porque ele
sempre exerceu gratidão.
Há
um personagem de um livro que diz “não tenha pena pelos mortos;
tenha pena dos vivos, principalmente daqueles que vivem sem amor”.
Meu vó sempre foi muito amado. Por todos.
Com
ele aprendi sobre hombridade e respeito.
Ele
gostava de cantar músicas de seu tempo, de trava-línguas complexos,
de jogar dominó e, ultimamente, procurar programações diferentes
na TV a cabo e mexer no seu smartphone. Ele não se negava a aprender,
nem se tornou aquele velho ranzinza que reclama de tudo que é novo.
Meu vô se adaptou aos novos tempos melhor do que muita gente com
metade de sua idade.
Metalúrgico,
sapateiro, ambulante, até homem da fossa (por um curto tempo), meu
vô trabalhou de tudo. Ele podia fazer todas as coisas do mundo, desde
que fosse uma de cada vez,
Mas
a verdadeira profissão dele, o ofício, foi ainda na juventude:
zagueiro. E é de família.
Com cara de mau, mas lealdade acima de tudo, meu vô defendeu o time de sua cidade, Tacaratu, com maestria. Era um CENTRERRAFO, como ele mesmo dizia (uma abrasileiração de "center-half", imagino eu). A disciplina da vida zagueira ele carregou para o cotidiano.
Meu
vô tratava até o mais simples dos problemas com seriedade e
objetividade – um zagueiro de verdade é centrado, não brinca em
serviço.
Todo
mundo conhecia sua pontualidade – pudera, zagueiro de verdade não
chega atrasado.
Quando
você pedia a ele um favor, fosse qual fosse, ele tornava-se um homem
com uma missão – firme, até o final.
Meu
vô era apaixonado por futebol e, acima de tudo, pelo futebol bem
jogado, mais até do que pelo próprio time, o Santos. Eu até tive a
oportunidade de acompanhar ele ao estádio por duas vezes: Uma pra
assistir um jogo da seleção brasileira: a despedida do Ronaldo
Fenômeno, no Pacaembu; e a outra vez num Corinthians e Botafogo,
pelo Campeonato Brasileiro. 3 a 1. Eu lembro como ele se encantou com
Arena nova, bonita, e como ele elogiou o corinthiano Romero. Não
porque ele jogava bem, porque o Romerinho é ruim demais, coitado.
Mas meu vô era esforçado, guerreiro, batalhador, nunca desistia, e
ele conseguia ver essa mesmas qualidades, as suas qualidades,
refletidas naquele paraguaio ruim de bola.
No
sofá da sala, às quartas e principalmente aos domingos, assistimos
juntos a incontáveis partidas de futebol, e por maior que fosse seu
repertório, ele sempre repetia a mesma reclamação de que os pontas
se apavoravam e entravam demais na área, e repetia também as
anedotas do tempo em que ainda era jogador, principalmente da vez em
que sentiu cãimbras e teve que ficar se contorcendo no chão quente
de terra, até que o carregassem pra fora, e colocassem na sombra; do companheiro de time que só sabia chutar com a perna esquerda e, quando recebia a bola na direita, era obrigado a girar em torno de si mesmo pra poder concluir a jogada; e também da vez em que jogou contra índios descalços, mas cujo pé era tão
afiado que rasgava as chuteiras dos adversários.
Quando
você pensa em uma pessoa com tanta força e disposição, é difícil
acreditar que há algo errado. Quando ele adoeceu, na quinta-feira,
nos perguntamos qual poderia ser o motivo, já que ele sempre fora
tão saudável. O motivo, descobrimos hoje de manhã, é que havia
chegado a hora.
Para
alguém tão ligado ao futebol, nada mais simbólico que o fim tenha
vindo junto com o encerramento da Copa do Mundo. Deus sabe o que faz.
Ainda bem que saudade não mata.
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