quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Um Dia de Futebol

"O futebol é a coisa mais importante da vida, dentre as menos importantes."



Assim ensinou Arrigo Sacchi, discutivelmente o maior técnico italiano de todos os tempos.

Faltando 370 dias para o início da Copa do Mundo do Catar, nações do planeta inteiro encheram estádios pós-pandêmicos e mandaram a campo seus 11 melhores jogadores disponíveis para pleitear um ingresso para a festa. E para, invariavelmente, terem seu sonho negado, pois só cabem 32 países dentre todos os 200-e-tra-la-lá.


Um baile V.I.P.


Mas isso é o de menos. A festa é bonita, é a razão de ser do esporte e, quando elevada a nível nacional, como hoje, tudo fica ainda mais intenso, seja pra quem se envolve, seja pra quem só assiste.  

E hoje foi o meu dia de assistir. 

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Do topo das colinas de conhecimento intelectual acadêmico até a mais escura e úmida toca de rato carinhosamente apelidada como “bar” por seus frequentadores, é consenso o poder alienante do futebol.


Mas se desde a década de 70 já se é apontado que “O futebol é o ópio do povo”, qual é quantidade de consumo para se atingir uma overdose?


Confesso que descobrir isso não era esse meu objetivo quando me levantei da minha cama pela manhã mas, conforme o dia foi avançando e as partidas decisivas acompanhadas por mim foram se acumulando, o dia de hoje foi se revelando como propício e ideal para botar a prova.
Afinal, qual a quantidade limite de futebol que um homem médio pode consumir antes de ser acometido por suadeiras, convulsões, dilatação das pupilas, confusão mental e palpitações no coração?

Junte-se a mim na jornada desse dia dezesseis de novembro de dois mil e vinte um e, juntos, vamos descobrir!

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13h00 - África e a crise de visibilidade


As eliminatórias africanas são muito cruéis.

Após um round eliminatório preliminar, 14 países têm seu sonho de participar de uma Copa do Mundo ceifado após somente 2 jogos. 

Depois disso, os restantes 40(!) times se dividem em 10 grupos quadrangulares, onde apenas o campeão de cada grupo se classifica… para uma última repescagem, novamente em 2 jogos.

É um funil que premia a experiência e o peso da camisa, pune qualquer ousadia desnecessária e que priva o mundo de conhecer estilos alternativos interessantes.

Burkina Faso, dona de um estilo alegre e ofensivo, é hoje o exemplo cabal disso.


Se nos demais continentes o jogo coletivo impera sobre o talento individual, na África, um craque sozinho ainda é o bastante para desequilibrar a balança.

Os Burkinenses jogam pra frente mesmo sem tem nenhum craque.

Porém, desses jogadores diferenciados, a pragmática Argélia dispõe logo de uma trinca. 

Ainda que Slimani tenha passado em branco, Mahrez e Slimani fizeram suas partes e garantiram que os argelinos não perdessem, sua única missão no jogo de hoje. A Argélia jogará a repescagem, enquanto os burkinenses terão 4 anos para buscar a peça de desequilíbrio que seu futebol arte ainda necessita para funcionar.




Só pude acompanhar o primeiro tempo do jogo acima.

Um robô derrubou todas as transmissões online, o que é absurdo em inúmeros níveis.  

O futebol africano já não goza do mesmo prestígio daqueles praticados pelos continentes campeões do mundo; esconder atrás de uma assinatura cara um dos mais atrativos jogos desse continente em perpétuo desenvolvimento é uma sacanagem tanto para o público, que já é de nicho, quanto para os jogadores, que veem subitamente tapumeadas suas mais brilhantes vitrines.


Me lamentei, me estressei e acabei mudando de canal.

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14h00 - Iraque e três pratos de trigo para três tigres asiáticos 


Comecei a assistir ao segundo tempo entre Koreia do Sul e Iraque. Mesmo que a seleção nacional não seja tão brilhante e imponente quanto o representante do país no mundial interclubes, a Koreia ainda é discutivelmente a força continental a ser batida. Dona do melhor retrospecto de todos os tempos de um asiático na Copa do Mundo, a respeitável quarta colocação atingida em 2002 com a ajuda de um 12º jogador fatasma ilustra bem a hierarquia das forças. Os tigres asiáticos passearam no estádio de Al-Gharafah e aos 34 do segundo tempo o placar confortável passou a refletir o massacre que há muito já acontecia dentro de campo. O jogo e as classificações desse grupo estavam definidos.




Hora de mudar de canal

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14h35 - África (de novo) e as zebras do deserto


Após vencer no jogo anterior a concorrente direta Guiné-Equatorial, tudo que a Tunísia necessitava hoje para selar seu avanço ao playoff africano era vencer a já eliminada Zâmbia; vitória que garantiu sem dificuldades ainda no primeiro tempo. Os zambianos descontaram num rebote de pênalti, mas os sólidos tunisianos marcham firme rumo a Catar.

Quem sabe talvez o clima árido do deserto, somado às aviltantes temperaturas cataritas, propiciem uma vantagem climática que permita ao povo do deserto sonhar com uma boa colocação no mundial. 



Pausa para o almoço.
Logo-logo tem mais.

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16h00 África e o duelo das ausências

Fechando a trilogia africana de hoje, a forte seleção de Camarões jogava a vida em casa, e precisava vencer seu adversário a qualquer custo. Tarefa corriqueira para um time tão tradicional no continente, não fossem os adversários a Costa do Marfim.

Se os Leões Indomáveis foram apresentados ao mundo pelo suingue artilheiro Roger Milla e tiveram em Samuel Eto’o sua referência técnica até bem há pouco, os marfinenses, por sua vez, viveram seu mais dourado período sob a regência de Didier Drogba, craque do Timão


Milla Dançando, Drogba matando e Obina, que é melhor que o Eto'o

Fosse a passagem do tempo algo menos cruel, teríamos hoje frente a frente esses dois gênios contemporâneos num jogaço, um verdadeiro embate técnico para a história Drogba x Eto'o. Mas a realidade é que os dois já estão aposentados, e só o que vimos em campo foram fantasmas do que poderia ter sido. Seus legados, seus descendentes em campo, não lhes fazem jus. Nem um pouco.

Mesmo que fosse possível que ambos os times viajassem ao Catar, é difícil imaginar que, jogando uma bolinha dessas, qualquer um deles chegasse à segunda fase, quaisquer que forem as configurações dos grupos sorteados.

Dois times amarrados, pouco criativos, presos demais em suas próprias convicções defensivas - e o pior, com defesas que nem são tão sólidas assim!

Um jogo tenso de vida ou morte, muito brigado e pouco jogado, onde os camaroneses sobreviveram e avançaram, provando que não é apenas jogando bem que se vence (ou se é eliminado) por essas bandas. 

Que o próximo jogo seja melhor, porque pior é difícil...
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18h00 Europa e o Deus nos acuda


Depois de deixar escapar a vaga antecipada contra Montenegro mais cedo essa semana, a Holanda precisava se segurar a Noruega, em casa para ficar com vaga. A seu favor, o jovem time neerlandês tinha a vantagem do empate e também o fato que o artilheiro adversário, discutivelmente o homem mais letal do mundo, estava fora da partida.

Sem o Majin-Buu Haaland para lhe socorrer, o camisa 10 nórdico Øodegaard se encontrou sobrecarregado e foi presa fácil para a linha de defesa laranja. Encaixotado entre os zagueiros e os volantes holandeses, ele não foi capaz de criar, nem a Noruega conseguiu buscar alternativas relevantes. O 0 a 0 se arrastou em banho maria até que, num bote súbito, a Orange tomou a ponta. A Noruega se lançou desesperada em busca duma virada milagrosa, apenas para encontrar mais uma bola no fundo de suas redes num contra-ataque de escanteio fulminante, já nos acréscimos.

Se uma coisa é certa nessa vida é que a Holanda nunca vai à Copa do Mundo para passear. Indiferente de qualquer sufoco que tenha passado nas eliminatórias, o time de Cruyff jamais pode ser subestimado.

Olho neles!

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19h00 Copa Libertadores Feminina e o preconceito estrutural


Se a Copa Libertadores nos permite contemplar a mais pura e inocente forma de paixão de nosso passa-tempo continental, com cabras sendo sorteadas nos intervalos das partidas, lança-chamas decorando arquibancadas, canções de Xuxa e Carmem Miranda sendo entoadas por dezenas de milhares de malucos e cachorros invadindo cada um dos metros de grama mais sagrados da América, a LIBERTADORES FEMININA é tudo isso e muito mais.

O (por enquanto) baixo investimento na categoria possibilita, além das bizarrices já listadas do certame masculino, a participação de toda sorte de novos oponentes, sejam versões femininas de camisas já consagradas (como Santos, Boca Jrs. ou Colo-colo), seja em agremiações novas e perfeitamente nomeadas, como a equipe colombiana FORMAS ÍNTIMAS.


Eu juro que não conseguiria pensar num nome melhor, mais adequado e mais empoderado nem que fosse muito bem pago para tal.


Pelas precárias condições com que são tratadas as atletas, especialmente se tentarmos traçar qualquer paralelo com suas contrapartes masculinas, seria de se esperar que as meninas tivessem entre si mais respeito, mais admiração, mais solidariedade. Afinal, o perrengue de uma é o perrengue de todas, e elas sabem disso.

Mesmo que haja (e existem!) abismos financeiros e de preparação, diferença física, técnica e de mentalidade, ali naquele ambiente não existem privilegiadas. Em alguma e qualquer escala, ao longo de toda sua vida, todas as jogadoras sofreram discriminação.

Todas elas. Seja ao brincar de jogar bola na rua ainda meninas, quando não eram levadas a sério ou ninguém passava a bola pra elas na quadra; seja no momento em que escolheram exercer sua carreira e sofreram pressão social ou familiar por conta disso; seja pelo simples fato de terem nascido mulheres numa sociedade machista. Todas sentiram na pele o preconceito.

É por isso que é triste e revoltante quando uma jogadora do Nacional (bolso) optou por perpetrar o ódio e ofender uma rival corinthiana por causa da cor da sua pele.

É uma pena que o mundo a tenha ensinado a ser assim, racista, mas jamais se deve provocar no outro algo que te fere.



A resposta do Corinthians veio ainda em campo, na forma de uma sonora goleada por 8 a 0 e uma comemoração histórica, emulando os Panteras Negras e, por que não, o próprio Doutor Sócrates, que lutou pelos ideais da Liberdade, Democracia e Igualdade. O caminho é nos unirmos, não nos separarmos.


Racismo não.

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19h15 Brasileirão e a Via-Crúcis tricolor


Após brilhante campanha onde conquistou menos de um ponto por jogo disputado, o Grêmio segue com precisão invejável a Cartilha do Rebaixamento e tem tudo para jogar a Série B de 2022, junto com Cruzeiro e Vasco.

O schadenfreude me  impulsiona a acompanhar cada partida do tricolor gaúcho como se fosse um mágico dentro do tanque de piranhas com uma camisa de força e que não consegue encontrar a chave.

Hoje, contudo, não pude me deleitar com mais um capítulo da saga do ilusionista tricolor pois, de alguma forma, Ferreyrinha, Churrin  e Jean Pyerre encarnaram Pelé, Garrincha e Vavá, e colocaram o Bragantino na roda.



Compreensivelmente focada na final SulAmericana do próximo sábado, a equipe de Bragança Paulista tirou o pé, engoliu o choro e aceitou passivamente seu papel de figurante no Balé da Morte gaúcho, que ganhou ao menos mais um capítulo de 90 minutos na primeira divisão.

O baile ainda se arrastaria por mais de meia hora, mas sem coreografia ou glamour, nem festa, pois nem torcida tinha no estádio, como forma de punição por agredirem o televisor do VAR.



Era uma festa exclusiva para a qual eu não estava convidado, nem tinha interesse.

Por isso, troquei de canal

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19h20 Venezuela e o sonho vermelho


O céu viñotinto de fim de tarde, a torcida fervilhante na arquibancada e a comemoração efusiva de Darwin… que momento! 

Naquele instante a Venezuela inteira era feliz, e em tudo seria possível acreditar.

Isso até os 20 do segundo tempo, quando Cueva, craque e ídolo São Paulino [carece de fontes] deixou o Peru na frente uma segunda vez.

A Venezuela se lançou ao ataque, em busca de um gol, tentando voltar a acreditar. Foi aí que entrou em cena Gallese, que defendeu um pênalti e tudo mais que foi lançado contra sua meta.

O Peru acredita. Ele quer a Copa, e com essa pontuação de hoje já está na zona de repescagem.


Com o arqueiro jogando nesse nível e a maré de sorte virando a seu favor, quem é que ousaria duvidar?

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20h00 Colômbia e a volta do filho exilado


Se a Colômbia claudica das pernas em sua caminhada ao Catar, muito se deve ao fato da rixa FABRICADA entre o técnico Reinaldo Rueda e o Craque da geração, James Rodríguez (esposo de alguém).

Referência técnica dos Cafeteros desde a Copa do Mundo de 2014, James tem sido sujeitado a piadinhas, humilhações e boicotes constantes por parte de seu comandante.

Na convocação para a Cova América de 2021, Rueda cortou James por supostamente estar acima do peso.

James pesa 76 Kgs.

Curiosamente, para a função de armador do time, Rueda passou a convocar Quintero, que eu considero um jogador excelente. Um clássico camisa 10. Mas, se James é gordo, qual argumento racional pode ser feito para justificar a forma física de seu substituto?



Questionado pela imprensa sobre por que seu jogador mais criativo ficou sentado no banco de reservas justamente quando a Colômbia necessitava de mais criatividade, Rueda alegou que James estava cansado. Cansado de contar todo o dinheiro que ganhou sendo contratado por um time árabe.
Eu não sei vocês, mas a tensão sexual entre os Rueda e James é realmente uma coisa de doido.
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20h30 Argentina e a Seleção Brasileira de Juniores


Para o jantar, o Brasil viajou para enfrentar a Argentina num caldeirãozinho de 20 mil espectadores. O time da casa não conseguiu pressionar e Messi finalizou pela primeira vez já nos acréscimos do segundo tempo. Di Maria mal tocou na bola.

A Seleção, invicta e já classificada antecipadamente para a Copa do Catar, mesmo recheada de garotos abusados e sem a referência generacional que é Neymar, conseguiu controlar o ritmo da partida e levar calor à defesa azul, mas não conseguiu mais uma vez o mais importante: marcar um gol.

Se realmente almejam ganhar a Copa do Mundo, as duas equipes têm muito a evoluir. O rumo, ao menos, parece correto.

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23h05 O deserto de gelo canadense


O México é famoso por seus desertos, cactos, sombreros e todas as coisas quentes desse mundo.

Fazendo-se valer da vantagem geográfica e estereotípica, o Canadá decidiu então

transferir a partida para o lugar mais gelado possível dentro de suas fronteiras.


A imprensa mexicana, em clara referência ao principal estádio do país, o Azteca, rapidamente batizou o estádio canadense de ICE-teca.


A sagacidade, contudo, não refletiu dentro de campo e, sob a sensação térmica de MENOS DEZESSEIS graus celsius, a estratégia fria canadense prevaleceu e, pela primeira vez na história do esporte, os Canucks saem de campo com uma vitória sobre o México, liderando as eliminatórias da Concacaf.

Anthony Davies, o jovem craque e referência do time gelado, negro e filho de imigrantes, transformou praticamente sozinho seu país, suas as ambições e a configuração de forças do continente dentro do ramo em que atua. 

Talvez exista aí uma lição a ser aprendida.
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1h11 da manhã, fim da última partida, hora da conclusão


Ufa, acabou!

Estou vivo! E bem!

Após viver um dia de futebol, eu tenho extrema dificuldade de separar as coisas. Tudo se fundiu em minha mente como uma grande massa disforme.


Eu gosto de viver a Copa do Mundo, acompanhando cada um de todos seus 64 jogos. Contudo, a Copa do Catar promete promover 4 jogos da primeira fase por dia. Deste modo temo que todos seus dias sejam como hoje - desgastantes.

Tenho medo porque, embora prazeroso, é cansativo. Tipo comer um Kilo de chocolate num dia só. 

Viver um dia assim como hoje é bem possível, mas deve ser evitado, especialmente com frequência.


Não entendo por que a Fifa faz isso. Eles QUEREM que eu NÃO assista todos os jogos, afinal? Porque é isso que parece que vai acontecer.


Não importa.

Vou me preocupar com isso (ou não) quando chegar a hora, daqui a 369 dias.


Por hoje, chega de futebol.

Fim do expediente. 

Hora de desligar a TV e jogar um videogame. 

Vou jogar algo relaxante.

De repente uma partida de Fifa, sei lá.

Não, tô brincando!

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-“Wakko, como isso afeta o mapa eleitoral?”

                                        -”Eu comi todos os estados!” 

-”Eu sou um monstro!”
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Vlw

Flw

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